11/30/2016

lunar




                tensa a noite
                espalha sobre as ruas ruídos
                insones amontoa

                nos becos desprezíveis
                tragédias roupas
                rotas

                nos varais pratos
                gordurosos na
                pia

                densa a manhã dispersa
                nos vazios os restos
                ressequidos verte

                sonhos desamparados pássaros
                ao relento árvores
                decepadas

                alguns homens atravessam
                a rua outros recostam

                se nos muros

                

durma

                                      para Carol



                encontrarás repouso para teus
                temores conforto para
                tua
                desolação

                haverá silêncio onde medre
                teus sonhos ternura
                para tuas
                aflições

                encontrarás delicadeza para
                teu cansaço afago
                para teus
                tédios

                haverá lua
                clara nos teus
                atalhos estrelas nas
                encruzilhadas

                eu estarei com você
                até o
                amanhecer
               


pouso



                rumor de chuva
                fina na janela teus
                olhos silenciam a

                tarde alastra
                se entre tuas
               
pernas procuro
abafar minha
solidão

rumor de desejo
espesso nas paredes teus
lábios ardem a

tarde esquiva
se nos

teus seios escoa
meu
desassossego

reconheço em tuas
mãos minhas
dores arranho tua
pele afundo me em

mim mesmo penetro
teu corpo arrasto teus
cabelos esqueço me
enfim

de meus
assombros


Comunhão


        Durante muito tempo ouvimos o assustador rumor das manhãs. O vazio das horas dilatadas. O clamor dos olhos incrédulos.
        Mas os portões permaneceram abertos. E no fulgor do silêncio foram, enfim, transpostos.
        Então os campos abertos fecundaram nossas mãos. E os vinhos de Espanha enrubesceram nossas pernas.
        Finalmente teus sorrisos preencheram o vasto espaço da cama. Teu cheiro impregnou as paredes turvas. E o perfume de teus lábios ecoou a lua crescente.
        Ao pé da aurora partilhamos a mais longa aragem. E no repouso dos dias límpidos os girassóis amadureceram em nossos corpos esgotados.

        Assim o infinito fez-se ainda mais profundo.                       

Aceno


Por tantas vezes o portão esteve aberto. E ainda está. Pois hoje cedo foi por ele que vi o sol nascer. Sim, lá mesmo onde semeamos girassóis. Onde permitimos que nossos silêncios nos salvassem.
Ainda carrego nos lábios meu melhor perfume. E meus olhos anseiam – ainda mais – participar de teu sorriso.
Venha. Pois este portão permitirá apenas tua passagem.
Os lençóis brancos continuam macios. E ainda que nossas vozes tanto se encontrem, um vasto lugar nesta cama clama teu calor.
Vem. Pois este portão foi aberto somente para ti.
Sim, aqueles vinhos de Espanha permanecem frescos. E sempre ecoam teu nome, no rumo indecifrável das manhãs.
Venha. Pois depois que este portão se abriu, nada poderá fechá-lo.

E eu não deixarei de te esperar. Jamais.